Aos meus pais.
Nasci numa família humilde, mas de cabeça erguida. Sou neto de um pedreiro, um cantoneiro, uma peixeira e de uma 'criada', daquelas que viveu parte da sua vida em casa dos ‘senhores’. Sou sobrinho de empregadas de limpeza, operárias, trabalhadores da construção civil e emigrantes. Filho de uma gaspeadeira de amostras e de um sapateiro que trabalha numa linha de produção.
Cresci com ideais que pensava que estavam generalizados a toda a sociedade, independentemente das posses de cada um. Ora se por ver as vizinhas da minha avó a ajudar na colheita das batatas, ora ao assistir em casa da minha tia à partilha das galinhas entre todos os que participavam na matança. Mais tarde, com o desenvolver da minha consciência política, compreendi que estes gestos de solidariedade eram parte da nossa condição de classe.
Os meus pais nunca foram muito interessados nas disputas políticas, na vida partidária ou algo desse calibre. Mas faziam parte do sindicato do calçado, e desde pequeno que ouvia lá em casa que: “a gente só vai lá se estiver unida”. Lembro-me muito vagamente de ambos estarem em situação de desemprego, na crise de 2009, logo a seguir ao pedido de insolvência da fábrica Rohde. Mais tarde, descobri que o eterno José Mário Branco faz uma referência às operárias desta fábrica de calçado, que recebiam menos que os homens, no “Mudar de Vida”.
O Francisco Louçã, a Marisa Matias, o Miguel Portas e o Pedro Filipe Soares estiveram na fábrica em demonstração de solidariedade com a justa luta daqueles trabalhadores que não queriam nem mais nem menos que terem o direito de voltar a fazer sapatos, de cabeça erguida. Eles e um camarada do Bloco, aquele que oito anos mais tarde estaria num café comigo a me entregar uma ficha de adesão para o Bloco de Esquerda. Por coincidência, ou ironia do destino, esse camarada foi durante muitos anos um dos delegados do sindicato dos meus pais.
No meu processo educativo, acabei por ingressar no Ensino Profissional, como muitos outros estudantes de famílias com poucos rendimentos que são aconselhados e orientados a seguir um curso que não os encaminhe para centros de explicações ou para uma futura licenciatura. Que perpetue o seu ciclo de pobreza. Apesar disso, com bastante sacrifício, hoje estou no meu penúltimo ano de licenciatura. E já começo a pensar no mestrado. Essa minha condição é um dos motivos de orgulho dos meus pais lá em casa, a esperança que o seu filho poderá sonhar em viver melhor que eles. Longe de uma jornada de 40 horas dentro de um pavilhão quente, a fazer tudo para poder cumprir ordens do encarregado.
Não sabia quando era mais novo, mas agora sei: toda a minha vida está centrada na luta de classes. Não conheço outra realidade que não seja crises atrás de crise do capitalismo. Mas não me resigno a esta vida. Dizia um cantor, já aqui citado, que: “esta vida eu a renego”, e sem dúvida, aprendi com a minha vida o quão urgente é virar o bico ao prego.
Este artigo não pretende, nem de longe, nem de perto, romantizar a pobreza numa espécie de glorificação judaico-cristã da condição de não pecador. Bem pelo contrário, demonstrar a honra de quem quer sair dela! O caminho para o socialismo é o garante da dignidade da pessoa humana. Afinal, já dizia o meu pai: “filho, não te consigo explicar melhor que isto: a esquerda é p’los pobres e a direita é p’los ricos!”.